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Você tem sorte?

Pesquisa revela que sorte é uma habilidade como outra qualquer. E, quanto mais você acredita nela, mais tem

Por Fernanda Bottoni

Se você é uma pessoa que deseja ter sorte na carreira, nas finanças ou na saúde, então é melhor esquecer coisas como trevos de quatro folhas, patas de coelho e ferraduras. Segundo o psicólogo Richard Wiseman, autor do livro O Fator Sorte (Editora Record) e chefe de uma unidade de pesquisa do departamento de psicologia da Universidade Hertford Share, do Reino Unido, sorte é uma habilidade -- e pode ser desenvolvida por qualquer um. Em seus estudos ao longo de dez anos, Wiseman ouviu centenas de pessoas de nível social e cultural e carreiras diferentes. Do total de entrevistados, 50% disseram ter sorte consistentemente em diversas áreas de suas vidas. Wiseman descobriu que esse padrão diferenciado de comportamento afeta diretamente o desempenho dos profissionais e, conseqüentemente, das empresas em que trabalham. Entre dezembro de 2002 e junho de 2003, o psicólogo desenvolveu um projeto para a Technical Asset Management (TAM), uma empresa britânica de porte médio na área de TI, e ensinou seus funcionários a adotar ações que facilitassem a manifestação da sorte. Resultado: durante os sete meses de duração do projeto, metade dos profissionais envolvidos reconheceram que tiveram mais sorte do que anteriormente. A empresa, por sua vez, registrou um crescimento de 20% no faturamento a cada mês durante o período do estudo.

"A sorte não é uma habilidade mágica ou um presente dos deuses", afirma Wiseman em seu livro. "Na verdade, as pessoas criam muito de sua boa ou má sorte por meio de seus pensamentos, sentimentos e ações." A sorte tende a afetar igualmente as diversas áreas da vida de uma pessoa, por tratar-se de um padrão de comportamento, um jeito de encarar os fatos. Prova disso é o que dizem os 14% dos entrevistados de Wiseman que se consideram "azarados". Segundo eles, sua má sorte não fica restrita à carreira ou aos relacionamentos. Ela costuma atingir as diferentes áreas da vida com certa uniformidade. Outra característica levantada por Wiseman é que ter sorte é uma habilidade interna e não externa, como acreditam muitos. Ou seja, ela depende muito mais de você do que do outro. Confira no quadro "Os Princípios de Quem Tem Sorte", as características daqueles que são freqüentemente contemplados por ela, de acordo com Wiseman.

O espanhol Álex Rovira Celma, co-autor do livro A Boa Sorte (Editora Sextante), é outro estudioso do assunto. Formado em ciências econômicas pela Esade Business School, de Barcelona, Celma analisou a biografia de 200 personalidades de sucesso em todo mundo. E concluiu o óbvio: que a sorte no trabalho é algo que pode ser cultivado no dia-a-dia. Um profissional de sorte, na avaliação do estudioso espanhol, é aquele que investe em quatro quesitos fundamentais: formação técnica e habilidades de comunicação; atitudes proativas; paixão pelo trabalho e compartilhamento de experiências; e conhecimentos adquiridos. "O mais importante entre esses itens é a boa comunicação", diz Celma. "A informação está ao alcance de todos e o profissional não vai se destacar apenas por investir nela. Ele precisa de formação sólida para aproveitar as oportunidades e de uma boa comunicação para chegar até elas."

E, na hora de buscar um trabalho, a sorte pode fazer diferença? Para a headhunter Iêda Novais, sócia-diretora da consultoria Mariaca & Associates, as oportunidades podem até aparecer ao acaso, mas o que garante à pessoa se manter numa posição de destaque é a competência. Ou seja, a tal sorte que Wiseman defende em seu livro, aquela que é resultado de uma estratégia clara, de uma postura ativa e aberta ao aprendizado constante. "Um executivo deve ter excelência técnica, competências comportamentais, planejamento de carreira e maturidade para suportar as diferentes pressões pelas quais irá passar a cada degrau que subir", afirma a consultora. É claro que para ter sorte, diz Iêda, é preciso arriscar e apostar numa oportunidade. E neste caso sempre há a possibilidade de fracasso. "Quem só crê no acaso não cria possibilidades. Para ganhar na Mega-Sena, você precisa comprar o bilhete. E o bilhete para o sucesso profissional é ter uma boa formação e bons relacionamentos."

NO LUGAR CERTO NA HORA CERTA
O diretor de vendas da Pepsi-Cola, Vladmir Maganhoto, de 33 anos, encontrou a pessoa certa na hora certa. Mesmo inexperiente, aos 22 anos, foi convidado a assumir a gerência comercial da Companhia Antarctica Paulista, que hoje pertence à Ambev, na grande São Paulo. Na época, era assistente de vendas da Cisper, fabricante de embalagens de vidro. "Talvez tenha tido sorte de encontrar alguém que apostou no meu trabalho para um posto
alto, apesar de ser inexperiente", afirma. "Posso dizer, no entanto, que confiei na minha capacidade e retribuí trabalhando duro." A rápida ascensão lhe valeu um convite para se transferir para a Penalty, empresa de materiais esportivos, como gerente nacional de vendas. Passou depois pelo site Submarino, com o objetivo de criar o braço B2B da empresa e, em 2000, foi para a Pepsi-Cola. Maganhoto se recusa a dizer que toda essa trajetória foi uma seqüência de boa sorte. "Quem tem sorte é aquele que trabalha mais, se preocupa em estudar e adquirir competências", afirma. "Escolhi caminhos arriscados e deixei boas empresas ao perceber que elas comprometiam o meu crescimento num certo momento."

OS PRINCÍPIOS DE QUEM TEM SORTE
1 - Os sortudos sempre aumentam as oportunidades de ter sucesso -- Essas pessoas costumam construir uma forte "rede de sorte", ou seja, mantêm relacionamentos com um grande número de pessoas, aumentando assim as chances de encontrar alguém que exerça um efeito positivo em suas vidas. Demonstram tranqüilidade diante das mais variadas situações, tendo, conseqüentemente, mais calma na hora de avaliar os problemas e buscar soluções. Além disso, estão abertas a novas experiências, o que contribui para que surjam boas oportunidades.

 

2 - Ouvem seus pressentimentos -- Pessoas sortudas acreditam em sua intuição e tomam atitudes concretas para aperfeiçoá-la: passam a meditar, procuram deixar a mente sem preocupações na hora de decidir e buscam um lugar calmo para refletir. Do total de pessoas pesquisadas, 90% admitiram ter sorte quando apostaram na intuição para lidar com assuntos ligados a relacionamentos pessoais; 80% fizeram o mesmo no caso da escolha da carreira.

 

3 - Apostam que a boa sorte prevalecerá no momento certo -- Tentam realizar seus objetivos, ainda que as chances de sucesso não sejam tão grandes, e não desanimam diante do fracasso. Esperam que seus relacionamentos sejam bons e bem-sucedidos.

 

4 - Transformam o azar em sorte -- Procuram enxergar o lado positivo diante de um infortúnio e acreditam que ele se transformará em algo benéfico no futuro. Assumem atitudes construtivas para evitar que a má sorte se manifeste novamente no futuro.
 

NADA ACONTECE POR ACASO
O caso do executivo Eduardo Franco, de 42 anos, é um bom exemplo da tese do psicólogo Richard Wiseman. Franco é tido por muitos colegas como uma pessoa de sorte por causa do seu sucesso profissional. A verdade, no entanto, é que ele construiu cuidadosamente cada etapa de sua carreira. "Eu planejo minha carreira desde a universidade e tratei de me qualificar para chegar onde queria. Quando as oportunidades apareceram, eu estava pronto para elas", diz. A primeira iniciativa de Franco, logo no começo da carreira, foi buscar colocação numa empresa de grande porte. Enviou currículos, fez contatos, batalhou e acabou sendo contratado pela Companhia Vale do Rio Doce como assessor administrativo em 1984. O passo seguinte foi mudar para uma organização que tivesse tradição em investir na formação de seus profissionais e que agregasse um sobrenome reconhecido no mercado ao seu currículo. Transferiu-se para a Castrol Lubrificantes, onde chegou a gerente de produtos. Na seqüência, recebeu o convite da Fleischmann Royal. Lá, ocupou os cargos de gerente de grupo de produto e, mais tarde, de marketing.

Uma vez conquistada a bagagem necessária, Franco passou a planejar outra mudança, dessa vez para uma empresa de porte menor, pois sabia que nas grandes companhias o seu crescimento seria mais lento. "Migrar para uma estrutura menor possibilitaria participação
nas várias áreas do negócio e maior grau de influência nos rumos a serem tomados." Franco foi, então, para a Stafford-Miller, chegando a diretor de marketing para a América Latina. Há cerca de três anos, recebeu o convite para ocupar esse mesmo cargo na Dentsply, empresa focada em pesquisa de novos materiais e tecnologias na área odontológica, com sede na Pensilvânia, nos Estados Unidos. Hoje, ele é o gerente-geral da empresa no Brasil e o vice-presidente regional para a América Latina. "Sempre que tomava a decisão de mudar de rumo,
o convite não demorava a aparecer", afirma. "Para os outros pode dar a impressão de pura sorte, mas eu sei que não foram lances de sorte, pois eu fazia muitas projeções, falava com headhunters e estudava quais empresas do mercado realmente me interessavam."

 

CARREIRA A SEU FAVOR
Para ter sorte na vida profissional, você precisa fazer a sua parte. Veja o que o psicólogo
Richard Wiseman e o cientista econômico Álex Rovira Celma recomendam:

 

* Você é a causa e não o efeito da sua carreira. Portanto, adote uma atitude mais ativa e deixe de lado o papel de vítima diante dos insucessos. Aprenda com as crises e não faça coisas pelas quais você não é apaixonado.

* Invista continuamente em formação técnica e habilidades de comunicação. "A habilidade para se comunicar pode ser mais importante que o conhecimento técnico hoje em dia", diz Celma.

* Fique atento aos seus pressentimentos e intuições. Decisões de sucesso estão geralmente associadas à disposição de ouvir e à confiança no instinto.

* Acredite no seu potencial. "As expectativas das pessoas de sorte quanto ao futuro têm a força de se tornar profecias de auto-realização", afirma Wiseman.

* Compartilhe experiências e conhecimentos com seu time.