Make your own free website on Tripod.com

O trabalho é uma droga

 

Leia trechos do livro A Arte da Guerra para Quem Mexeu no Queijo do Pai Rico, uma deliciosa sátira da auto-ajuda corporativa

 

O livro trata do Pensamento Negativo, corrente filosófica que busca o Ócio Emocional; mostra que o trabalho não enobrece nem dignifica; aborda a epistemologia da sorte -- e como ela poderá ajudá-lo a jogar na loteria corporativa; lembra que de nada vale ter pensamentos nobres se eles obrigarem seus colegas a trabalhar; ajuda a matar o tempo ocioso em reuniões e outros eventos inúteis; mostra que a busca pela liderança não leva a lugar algum; relata os hábitos de profissionais de carreira invejável; discute a função social da arte; ajuda você a trabalhar com mais estilo; e discorre sobre a função de Marte e da Camisa de Vênus em festas de firma. Em resumo, nada do que você já não sabia.


Eis a riqueza do Pensamento Negativo: o momento iluminado em que você se resigna e não luta mais por uma empresa que, afinal, não é sua e não está lá nem por mérito nem por culpa sua. Nesse instante toma consciência que as outras são ainda piores e que trabalho, se fosse bom, não seria remunerado. Como não pode nem tem paciência para fazer mais nada, você deixa os outros fazerem -- e assume as glórias. É o Ócio Emocional. Com ele, somem as expectativas, angustias, estresse e culpa. As respostas ficam claras e a vida, muito mais simples.

Acorde e tome consciência: não vai mudar. Mesmo que você se empenhe, lute, corra atrás, vire noites e finais de semana trabalhando, leia e escreva relatórios, contrate consultores, faça cursos, participe de seminários, se informe, termine seu MBA, não vai mudar. Se seu chefe mudar, talvez mude. Só que para pior. Se você mudar de divisão ou de emprego, perceberá que só mudam as moscas. Ainda bem.

Já pensou se mudasse? Talvez você corresse o risco de ser um daqueles que gostam do trabalho. Que decoram suas baias, contam piadas sem graça e ficam no escritório muito depois do expediente, em atividades tão produtivas quanto arrumar gavetas, responder e-mails ou jogar games de mata-mata em rede. Que saem de lá e só contam coisas de lá. Até porque sua vida se resume aos que vê lá -- a tal ponto que, em muitas categorias profissionais, casais se formam dentro das empresas. Mais ou menos como animais que se reproduzem em cativeiro: um pouco doidos, mas tão bonitinhos nas suas jaulinhas...

Por esse motivo proponho a libertadora e revolucionária teoria do Pensamento Negativo. Linha de pensamento baseada nas tristezas da vida corporativa, essa escola reúne um conjunto de axiomas extremamente profundos, que, em vez de se basear em filosofias gregas ou orientais (que foram criadas por gente que não trabalhava, pelo menos não em firmas), se apóiam em lições aprendidas no equivalente moderno do confessionário: o balcão do boteco.
 

O nirvana do Pensamento Negativo é o Ócio Emocional, que isenta seu coração do ambiente sufocante onde está. Desaparecem as invejas, ambições e paixões, e se chega a um estado de iluminação em que o mundo corporativo e seus profissionais são vistos sem julgamento. Verdadeira catarse emocional, permite ao ocioso alcançar níveis de desapego nunca antes imaginados: nada mais é importante -- carreira, chefe, estresse, carro, relatórios, mercado.


OS 10 MANDAMENTOS DO PENSAMENTO NEGATIVO
1 - Não sairas
- Se você não estivesse na firma, onde estaria? Em outra? Isso faria alguma diferença na sua qualidade de vida? Nem se preocupe em responder.

2 - Não descansaras - O que você pensa em fazer depois do seu segundo ano de aposentadoria? Pois é, a vida lá fora não é tão interessante assim. Trabalhar até que não é de todo mau e paga melhor.

3 - Não empreenderas - A idéia do negócio próprio é deturpada -- o que todos querem é descansar na praia, dançar na festa, jantar no restaurante e... não lavar a louça. Monte o seu negócio e nunca mais terá férias.

4 - Não pagaras impostos - É melhor negociar com seu chefe um salário líquido e não ligar para aquele número fictício que aparece no holerite.

5 - Não se importaras - As ações caíram? A empresa é vítima de múltiplos processos?
Há rumores de se fechar a operação no país? Está inadimplente? O diretor foi pego em caso de pedofilia? Dane-se, você só trabalha lá.

6 - Não perderas o sono - O que é melhor: sonhar acordado ou dormir profundamente? Quem tem salários a pagar costuma optar pela primeira.

7 - Não trabalharas - Nenhum empresário é pago para jogar Tetris ou equivalentes. Esta é uma variação da máxima "tempo é dinheiro... deles".

8 - Não malharas - Onde mais você vai encontrar admiradores de 20 anos de idade, pouco importa seu físico?

9 - Não sofreras - A culpa não é sua. As glórias, sempre.

10 - Não economizaras - Você teria coragem de gastar seu próprio dinheiro em bobagens como aquela viagem, jantar ou idéia que não valia tanto a pena?
 

FALSOS PRAZERES CORPORATIVOS

O problema com o trabalho é que ele parece viciar e entorpecer como um narcótico, do tipo que só traz efeitos colaterais: ataca o organismo, cria inconveniências sociais, rouba o sono e dá uma baita dor de cabeça. Estatísticas mostram que dirigir cansado ou furioso com o trabalho é tão ou mais perigoso que dirigir sob a influência de certas substâncias psicotrópicas. É público e notório que uma das melhores formas de se escapar dos riscos do vício é evitar a freqüência de ambientes perniciosos, como feiras e outros eventos de forte presença de psicodependentes e seus gurus. Muitas vezes, na busca de um inocente desejo (como encontrar parceiros para sexo recreativo, por exemplo), a vítima é exposta aos falsos prazeres da vida corporativa e deixa-se envolver. Arrisca-se, assim, a percorrer uma longa descida ladeira abaixo que pode terminar na destruição de seu tecido familiar e social, justamente nos melhores anos da sua vida.

Sinais exteriores do vício fazem crer ingenuamente que o mundo corporativo é estranho: você acorda um bagaço, se arruma, se penteia, se perfuma e veste uma roupa limpae razoavelmente elegante para ver aqueles colegas de sempre, por quem nutre uma mistura
de indiferença, inveja e ódio. Mesmo que os veja há 40 anos, continua a se arrumar para vê-los. Depois de um longo expediente, você chega em casa estressado, exaurido, sujo, amarrotado, malcheiroso, moído, monossilábico, sem outro desejo senão ligar a TV para esvaziar a cabeça.

Isso, é claro, compromete gravemente sua vida social e faz com que seus amigos desapareçam. E o que dizer de sua relação com aquele/a pobre que um dia foi sua cara-metade e, graças ao seu trabalho, se tornou um monstro de incompreensão? Por outro lado, seu relacionamento com a firma se encaixa nos moldes de um casamento-modelo: as datas são sempre lembradas, os horários cumpridos, muitos sorrisos, elogios e saudações diárias, roupas novas, tudo tem seu lugar e uma fidelidade (aparente) canina.

 

SOBRE REUNIÕES

De todas as atividades que caracterizam o executivo, nenhuma é tão comum quanto as famigeradas reuniões. Se existem reuniões objetivas, elas devem acontecer por absoluto acaso. Ou em outro planeta.Veja abaixo os reais objetivos das reuniões:

 

REUNIÃO COM TÍTULO

NORMALMENTE SE PRETENDE:

Reunião (sem objetivo definido)

Matar o tempo

Apresentação a supervisores/acionistas

Puxar o saco dos gringos

Apresentação de metas

Fingir que se trabalha

Definição de novas estruturas

Estabelecer relações de poder

Alinhar as lideranças da empresa

Saber aonde levará tamanha incompetência

Expor estratégias corporativas

Mostrar que a presidência vive em outro planeta

Reunião de departamento

Contar as cabeças para cortá-las

Reunião com seu chefe imediato

Você está despedido

Reunião com o chefe do seu chefe

Seu chefe está despedido.E não haverá promoção

Comemorar metas

Cobrar mais metas de você

Apresentar programas de incentivo

Cobrar muito mais metas de você

 

 

 

 

 

AS DROGAS DO TRABALHO E SEUS EFEITOS

Classe da substância

Local encontrado

Efeitos

Efeitos da superdosagem

Alteradores de humor

Holerites

Derrubam o humor

Agressividade

Tranqüilizantes

Conversas com chefes

Bocejos intermitentes

Aumenta o consumo de cafeína

Indutores de sono

Salas de reuniões

Sono profundo

Atrofia cerebral

Estimulantes

Baias de estagiários

Equipes mais animadas

Intoxicação grave

Euforizantes

Salas de chefes

Sensação de poder,excitação e euforia

Paranóia e convulsões

Relaxantes

Happy hour

Indiscrições e confidências

Tentativas de suicídio

Alucinógenos

Salas de chefes

Visões (em casos raros,missões e valores)

Bad trips,delírios,ansiedade e desorientações

 

 

 

 

SOBRE NETWORKING

Administrar o acaso é um processo eficiente para se progredir na firma, mas não é 

suficiente. É preciso criar oportunidades. Para isso deve se concentrar na arte de fazer

amigos e influenciar pessoas ou, em português corporativo, networking. Veja como:

 

1. Esqueça os cursos de vinho ­ Eles custam uma fortuna e fazem você perder um tempão tentando entender a consistência de um frutado. Economize seu dinheiro e gaste seus neurônios decorando os nomes dos bons vinhos que leu em jornais.

2. Domine dois idiomas ­ Mesmo que o primeiro seja o seu e o segundo algum que ninguém conheça. No conto O Homem que Sabia Javanês, Lima Barreto explora divertidamente o efeito da língua na carreira. Fez isso em 1911.

3. Não basta ser honesto; é preciso parecer ­ Ainda mais se você for desonesto. Vale também para competente, ocupado, importante.

4. Cause uma primeira impressão ­ Boa, claro. Mesmo que não seja verdadeira.

5. Aprenda com os erros (dos outros) ­ Esperar que o outro faça e depois assumir as glórias é chamado por aí de competência. Empty Picture Box