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O executivo zen

Conheça o estilo de liderança do chinês Chu Tung, presidente da EDS, que combina os princípios milenares de Confúcio

com a gestão focada nas pessoas

Por Rosa Symanski

Os profissionais da subsidiária brasileira da EDS, uma das maiores empresas de serviços de tecnologia do mundo, costumam pensar duas vezes antes de dizer que não são responsáveis por determinado problema. Fugir das responsabilidades é uma das posturas que seu presidente, o chinês naturalizado brasileiro Chu Tung, de 60 anos, mais condena em sua equipe. A outra é chegar atrasado às reuniões e dizer que a culpa é do trânsito. Vai ter cara feia na certa. "Se não conseguimos assumir responsabilidades ou cumprir obrigações simples, não teremos moral para dizer aos nossos clientes que vamos honrar compromissos assumidos", diz ele. O estilo de Chu Tung é assim mesmo: simples, lógico e com pinceladas da milenar sabedoria oriental. Em vez de ler os badalados gurus americanos, Chu Tung prefere colocar em prática os ensinamentos do filósofo chinês Confúcio, que viveu entre 552 e 579 a.C. e pregava o pragmatismo. Ou seja, a idéia de que uma doutrina só é boa se puder ser colocada em prática. O resultado disso é um modelo de gestão pouco ortodoxo, focado no ser humano, que vem fazendo muito bem aos negócios e aos funcionários da EDS.

Quando Chu Tung assumiu a empresa, há seis anos, a imagem da organização estava bem arranhada junto aos clientes. A EDS tinha dificuldades para cumprir os compromissos por causa do baixo comprometimento dos funcionários. Não havia paixão pela companhia e o ambiente era ruim. Em vez de partir para ações focadas em melhorias de processos, Tung preferiu apostar na mudança de atitude das pessoas. Para isso, promoveu uma revolução interna. Primeiro, deixou claro que chefes truculentos e desrespeitosos não teriam vez com ele. Depois, tratou de mostrar ao pessoal que era um bom ouvinte e que gostava de conhecer a opinião das pessoas mesmo que fossem contrárias às suas. A partir daquele momento, todos poderiam se sentir à vontade e manifestar suas opiniões. Em seguida, começou a participar diretamente dos processos de seleção de profissionais, hábito que ainda mantém.

Resultado: atualmente a organização está em plena fase de crescimento, contratando, em média, 150 profissionais por mês. O Brasil representa 50% do faturamento da companhia na América Latina e deve abrigar uma nova unidade em 2005 na cidade de Araraquara (SP), que irá se somar às outras três já existentes nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis. A empresa tem 6 000 funcionários -- e esse crescimento não vai parar por aí, segundo os planos de Tung.

Embora reconheça a importância de ter na equipe talentos com currículos brilhantes e com formação nas melhores escolas, Tung prefere valorizar a personalidade e o caráter das pessoas. "Acredito que a diferença entre as empresas de sucesso e as demais esteja na capacidade de identificar os bons profissionais no sentido mais amplo", diz ele. "Isso mexe com o resultado de qualquer companhia." Para Tung, as práticas da busca por profissionais no mercado passaram por modificações profundas desde que vieram à tona as fraudes de balanços das gigantes norte-americanas Enron e WorldCom, em 2002. Ele lembra que as alterações nos balanços dessas empresas foram feitas por pessoal qualificado, com MBA e doutorado. Ou seja, a exigência de competências era tão enfatizada que ofuscava aspectos como caráter e integridade. "Depois desses escândalos, começamos a valorizar o comportamento ético tanto quanto o currículo."

 

Olhos nos olhos
O presidente da EDS reconhece que as empresas nem sempre estão dispostas ou têm tempo suficiente para saber detalhes mais consistentes do passado do candidato. Mas, como considera fundamental ter as pessoas certas no lugar certo, ele prefere investir parte de seu tempo na tarefa de buscar os melhores. Para avaliar aspectos abstratos, como a ética e o caráter de um profissional que deseja trabalhar na EDS, Tung observa, por exemplo, o número de empregos que a pessoa teve. E busca referências sobre esses trabalhos anteriores. Para ele, o fato de o candidato passar a maior parte da carreira pulando de uma empresa para outra pode ser sinal de que ele não se compromete com nada e abandonará o barco a qualquer momento. Tung presta muita atenção também em aspectos comportamentais. "Não tolero ninguém que tenha posições autoritárias e extremistas", afirma. Quando a vaga é para uma posição gerencial, ele faz com que pelo menos seis executivos do time participem das entrevistas. Todo esse cuidado tem valido a pena. De acordo com o RH da empresa, apenas 1% dos funcionários pedem demissão anualmente, sinal de que a satisfação anda alta por lá. Um dos fatores que tem gerado orgulho no pessoal são as ações sociais da EDS. O projeto de maior sucesso nessa área é o desenvolvido com as crianças do Pólo de São Bernardo do Campo do Projeto Guri, feito em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, o governo federal e o município de São Bernardo do Campo.

Reconhecimento
O estilo de gestão pouco convencional de Chu Tung criou uma espécie de aura em torno da EDS no mercado. Com a humildade de um monge budista, no entanto, ele não reivindica para si os louros da gestão inovadora da empresa. Prefere atribuir isso ao presidente anterior, o mexicano Michael Cimet. "Foi Michael quem introduziu, há sete anos, este tipo de gestão que preza a ética e o comportamento das pessoas", diz. Mas, para os funcionários, os méritos são mesmo de Chu Tung. O executivo Marcelo Mendonça, que já ocupou um cargo de liderança na EDS, o define como um profissional tranqüilo, raro de se encontrar hoje em dia. "Ele reflete antes de tomar decisões", afirma Mendonça, que atualmente é diretor da assessoria de imprensa MVL.

As mulheres também aprovam a gestão de Chu Tung. Elas, aliás, ocupam 32% dos cargos de liderança da empresa, um número expressivo se levarmos em conta que se trata de uma organização da área de tecnologia, em que existe a predominância masculina. "Ele gosta de trabalhar com mulheres", diz Gláucia Teixeira, diretora de recursos humanos da EDS. "Tem uma grande sensibilidade para lidar com elas e sempre demonstra orgulho do quadro feminino da empresa."

Para Joel Dutra, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e consultor na área de recursos humanos, a EDS é um modelo bem-acabado de gestão de pessoas. "Ela é tranqüila, natural e tem como base o alto grau de participação dos funcionários", afirma. "É claro que existem empresas que se preocupam com isso, mas é muito fácil enxergar que Chu Tung está aprimorando essa fórmula." O executivo, aliás, encontrou uma maneira pouco comum de prestar um atendimento ainda melhor. Tung costuma contratar alguns funcionários de seus clientes, obviamente em comum acordo com eles. Dessa forma, a EDS passa a ter em sua equipe talentos que conhecem todos os detalhes da cultura e das necessidades desses clientes, o que torna mais fácil atendê-los de acordo com suas expectativas.

José Tolovi Júnior, presidente da consultoria Great Place to Work Institute no Brasil, diz que o modelo participativo adotado por Tung tende a se consolidar cada vez mais no mercado. "As pessoas ganharam mais importância nas empresas. Muitos postos de trabalho foram extintos, o que resultou em poucos funcionários acumulando um grande número de funções", diz ele. "E, quando há menos gente envolvida nos processos, sua importância passa a ser maior para os negócios."

Ser bem-sucedido no mercado hoje, segundo o consultor, depende de agradar tanto o cliente quanto o funcionário. O fato do turn over da EDS ser baixo demonstra que a empresa consegue manter seus talentos. "Cada profissional é um indivíduo único e sempre se perde algo peculiar inerente a essa pessoa quando ela vai embora da empresa. E isso parece claro para Chu Tung", diz Tolovi.

Pioneira na área de terceirização de serviços de tecnologia de informação, a EDS é vista como uma desbravadora de novos mercados. "Eles estão no caminho certo, pois descobriram que o melhor negócio é oferecer ao cliente o que ele necessita e não lançar produtos e esperar que haja uma adaptação natural", diz Jorge Sukarie, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software. "Essa mudança de paradigma na EDS é mérito de Chu Tung."

 

"SUCESSO É CONSEQÜÊNCIA"

Chu Tung chegou ao Brasil com sua família no início da década de 50, fugindo da revolução chinesa. Seu pai era militar e temia ser vítima de perseguição. O garoto foi aos poucos se adaptando ao país. Cresceu e sofreu a influência natural da cultura ocidental e se tornou um apaixonado por motos, principalmente as da marca Harley-Davidson. Tung foi criado dentro dos preceitos do catolicismo, chegando até mesmo a ser coroinha e a ajudar os padres a rezar as missas. Aos poucos, seu interesse pela religião foi perdendo espaço para a leitura de livros de filósofos como Sócrates, Platão e Espinosa e o gosto pela informática. Na metade da década de 60, já no segundo ano do curso de engenharia civil da Poli-USP, ganhava mais do que muito engenheiro formado por saber usar bem o computador. Apesar de totalmente ocidentalizado, Chu Tung gosta dos ensinamentos de Confúcio, para quem uma doutrina não deveria se limitar apenas às discussões teóricas, mas sim ser colocada em prática no dia-a-dia. Antes de trabalhar na EDS, Tung foi diretor de tecnologia da Bozz-Allen e um dos sócios da empresa de engenharia Promon. Nunca se preocupou em conquistar cargos. "Um profissional não deve perseguir posições ou dinheiro", afirma. "Essas coisas são conseqüência de um trabalho bem-feito, e não resultado do objetivo em si."